Capítulo 1: O Que Custa O Topo da Colina
O teleférico demora doze minutos para subir. Doze minutos de pura vista panorâmica dos Alpes suíços, com neblina passando de hora em hora e uma vista que, se você não fosse o mais pobre do lugar, seria impressionante. Para mim, os doze minutos eram o espaço de tempo necessário para convencer o pé que as chuteiras não me matariam.
Elas eram duas numeros maiores que o meu pé. Não é um exagero, é matemática. O olheiro que me descobriu na areia do Campo de São Cristóvão comprou as chuteiras de segunda mão de um garoto de uma academia em Genebra, e quando me entregou o pacote num domingo de manhã, num bar onde eu trabalhava de garçom às nove da noite, ele disse que era o máximo que tinha. Eu calcei, joguei e não reclamei. Reclamar era luxo que não existia no meu orçamento.
Agora, a doze minutos do cume de uma colina artificial nos Alpes, sentindo o couro sintético apertar os dedos do pé direito, repensei algumas escolhas da vida. A cirurgia da mãe, por exemplo.
O teleférico estaca suavemente no terminal de chegada. A porta se abre para um átrio de mármore branco que parecia um palácio de gelo, e o primeiro rosto que eu vejo é Zeca, deitado num banco de mármore com uma tigela de açaí tamanho família e óculos de sol que só fazem sentido dentro de um clube de praia.
"Bento, mano." Ele se levanta com a velocidade de quem já esperava. "Chegou cedo. Eu até comi metade e dei a desculpa que era uma armadilha de espionagem."
Eu olhei para ele. Zeca Fernandes, goleiro, filho de dono de rede hoteleira, sempre com acessórios de praia num lugar onde a temperatura mínima em janeiro é menos oito. Ele me estendeu a tigela de açaí com a seriedade de quem oferece uma mão amiga.
"Eu não como açaí," eu disse.
"É o seu primeiro dia."
"É a minha vida inteira."
Zeca não se abalou. Ele engoliu a última colherada com dignidade. "Boa sorte, mano. A coisa aqui não é como no Rio. Aqui, se você errar o passo, a pessoa já te mandou de volta de helicóptero."
"Já aconteceu?"
"Três vezes esse ano."
Fiz o caminho do terminal até o prédio principal sozinho. O átrio tinha teto de vidro que revelava o céu alpino e pessoas andando que pareciam saídas de um catálogo de grife. Uniforme de gola alta azul-marinho, calça branca, sapatos que pareciam feitos à mão num país que não estava no mapa. O tecido era bom o suficiente para ser sentido a um metro de distância. Meu uniforme, o mesmo que todos os bolsistas recebiam no caçamba de entrega, pendia no meu corpo como roupa de crime.
Alguém passou por mim e me olhou de cima a baixo. Não foi um olhar de maldade, exatamente. Era algo pior. Era curiosidade, como quem vê um cachorro de raça numa fila de banco. A pessoa já calculava o que eu custava e percebia que a conta não fechava.
Meu destino era o escritório do diretor. No mapa que me deram na base, eu deveria subir pelo corredor lateral, cruzar a ala dos bolsistas, pegar a escada principal e o escritório ficava no terceiro andar, ala oeste. Tudo muito óbvio, tudo muito sinalizado. Era como se a escola dissesse: aqui é onde vocês param. Aqui é onde paramos de fingir que somos iguais.
A ala dos bolsistas ficava no subsolo. Eu desci as escadas e vi o corredor antes de chegar nele. Janelas que davam para o jardim de esculturas dos ricos. O jardim era bonito, eu não ia mentir. Esculturas de bronze, arbustos podados com precisão cirúrgica, bancos de pedra que provavelmente custavam mais que o apartamento inteiro da minha mãe. A vista era bonita. A porta nunca era trancada. Era um aviso, e eu sabia o que significava. Ninguém precisa trancar o que não se importa de perder.
Passei pelo corredor sem olhar muito. Quarto número 14. Cama feita, escrivaninha limpa, janela para o mesmo jardim dos ricos. Eu deixei as chuteiras debaixo da cama e sentei no colchão. Macio demais. Macio demais para ser útil.
O diretor Sturm me chamava às nove. Eu estava pronto às oito e trinta. Preparei o uniforme num gancho da parede e passei a calça branca com o pé de apoio no espelho do banheiro. Passei o uniforme novo, ainda sem amido das outras dez mil vezes que foi passado. O resultado não ia engana ninguém.
O escritório do diretor ficava no extremo norte da propriedade. Um palacete vitoriano remodelado, visível de nenhum corredor principal, escondido como quem não quer nada. A porta era de madeira escura, sem placa. Alguém me disse que quem não tinha compromisso marcado não batia. A batida era um código: três pancadas leves, pausa, duas mais fortes. Como se a escola já soubesse quem eu era antes de eu entrar.
Sturm me recebeu de pé, perto da janela que olhava para o vale de Chamonix. Cinqüenta e oito anos, cabelos grisalhos aparados, um terno que eu não sabia nomear mas que me disse, pela textura, que custava mais que o meu mês inteiro de bolsa. O relógio no pulso esquerdo capturou a luz do vale e mandou de volta em pequenos arco-íris.
"Bento Carvalho Mendes." Ele me estendeu a mão. Toque de pulso, como ensinam aqui. Ele tocou meu pulso com a ponta dos dedos, e eu senti o batimento acelerado por uma fração de segundo. "Sente-se."
Eu me sentei. Ele não se sentou.
"Você sabe por que está aqui," disse Sturm. Não era uma pergunta.
"Me disseram que é pra jogar futebol."
"Você foi contratado para jogar futebol." Ele se inclinou para trás, apoiando as mãos na poltrona de couro. "Mas isso é a parte fácil. O que eu preciso que você faça é mais complicado."
Eu esperei.
"O time dos Kings tem uma sequência de derrotas. Quatro seguidas. A última foi contra a Escola Riva, e o placar foi 5 a 0. Os pais dos alunos Nível 1 estão furiosos. O conselho diretor está discutindo o corte de verbas do departamento esportivo. Se o Mont Blanc perder o Torneio Transalpeno, perdemos o patrocínio da Bundesbank, que é o que sustenta trinta e sete bolsas de estudo."
Ele falou tudo isso sem respirar. Como quem recitou de memória.
"Por que eu?"
"Porque você joga por necessidade." Sturm me olhou fixo. "Todos os seus companheiros de time jogam por desejo. Vicente joga porque é a única coisa que o pai deixa de cobrar dele por uma hora. Os outros jogam porque o uniforme é a única roupa que seus pais escolheram para eles. Você, Bento, joga porque se não jogar, você não tem nada. Eu preciso de alguém que jogue com fome. Alguém que não esteja aqui por opção."
O silêncio durou três segundos. O relógio de Sturm fazia um tique quase inaudível.
"E o que eu tenho em troca?"
"O pagamento da sua dívida de bolsa. O Torneio Transalpeno começa em seis semanas. Três vitórias e uma empate bastam para garantir o primeiro lugar na fase classificatória. Se o time vencer o torneio inteiro, a dívida se extingue. Você pode voltar para casa."
Cinco segundos de silêncio. Eu olhei para as mãos. As mesmas mãos que seguravam bandejas de café num bar do Rio por seis horas por dia. As mesmas que consertavam motor de moto com o pai aos domingos.
"A cirurgia da minha mãe custa o que a minha dívida de bolsa custa," eu disse.
Sturm assentiu. Ele já sabia. Ele sabia de tudo, provavelmente.
"O manual." Ele se levantou e abriu uma gaveta da escrivaninha. Tirou um caderno grosso, capa dura azul-marinho, engomado e encadernado à mão. "Trezentas páginas. Regras não escritas, costumes, hierarquia, protocolos, o que é seguro dizer e o que é suicídio. Você vai ler tudo. Não amanhã. Hoje. Antes do primeiro treino, você vai ter lido pelo menos as cem primeiras páginas."
Eu peguei o caderno. Era mais pesado do que eu esperava. O cheiro era de papel novo misturado com algo que eu não consegui identificar. Perfume? Madeira antiga? Talvez só o cheiro de segredo.
"Tem mais uma coisa." Sturm se aproximou da janela e olhou para o vale. "Ninguém aqui sabe que eu te contratou. A bolsa era pública. A contratação é secreta. Para o time, você é um bolsista que ganhou uma vaga. Para a escola, você é uma jogada. Não conte a ninguém. Principalmente não a Vicente."
"Eu não conto."
Sturm me olhou pela primeira vez direto nos olhos. O sorriso que nunca chegava aos olhos. "Bom garoto. Agora vá ler."
Eu li.
Cem páginas em três horas. Zeca apareceu às onze com uma bandeja de sanduíches que eu não queria e me contou que o uniforme custava quinze mil reais e que a marca do tecido era a mesma de um hotel cinco estrelas em Milão. Eu não dei atenção e continuei lendo.
A hierarquia era dividida em níveis. Nível 1: a Dinastia. Filhos de monarcas, magnatas, líderes políticos. Uniforme personalizado com monogramas bordados à mão. Nível 2: a Elite. Filhos de CEOs e diplomatas. Seguidores reais mediam poder social. Nível 3: classe média internacional. Nível 4: excluídos talentosos. Atletas, estudantes de arte. Tolerados enquanto produziam, dispensados quando não.
Eu estava no Nível 4. Não me surpreendeu.
Havia regras que eu já conhecia por instinto e outras que eu nunca havia imaginado. Aperto de mãos substituído por toque de pulso. Elogiar alguém era fraqueza. Criticar era poder. Nunca citar o nome de um ex-aluno expulso. Nunca fotografar a Ala dos Bolsistas. Nunca mencionar dinheiro em voz alta. Nunca derrotar o capitão do time em público.
Cem páginas e eu já sabia mais sobre a Colina do que sei sobre o meu próprio bairro.
Às duas da tarde, fui ao refeitório. A sala de jantar nobre tinha janelas do chão ao teto e uma mesa central de madeira escura que parecia um altar. Os alunos Nível 1 e 2 sentavam no nível elevado, uma plataforma de madeira clara que sobressaía do piso. O resto sentava no chão. Eu sentei no chão. Alguém me olhou, mas ninguém me convidou.
Zeca já estava lá, sentado numa mesa de Nível 3 com uma garrafa de água que ele disse ser de "fontes alpinas puras". Ele fez um gesto com a cabeça quando me viu, como quem diz "seja feliz".
O refeitório funcionava com convite. Quem entrava sem convite era expulso. Eu tinha o meu cartão de bolsista que, tecnicamente, me permitia comer aqui. Na prática, ninguém lembrava de me dar o cartão quando eu entrava. Eu comia do prato padrão, que era arroz e frango grelhado, e ninguém dizia nada.
Às quatro da tarde, o primeiro treino no Estádio Mont Blanc.
O estádio era artificial. Grama aquecida, iluminação de estádio profissional, três drones de filmagem sobrevoando o campo em formação triangular. Tudo isso para um treino. As grama parecia verde demais, como se alguém tivesse pintado. Mas a bola rolava direito, e eu não ia reclamar disso.
Os Kings já estavam no campo quando cheguei. Vicente no centro, loiro platinado, corpo de ginasta, sorrindo como se estivesse prestes a rir de algo. Ele me olhou e disse "novato" com um tom que parecia uma saudação.
O treino foi o que eu esperava. Passes curtos, exercícios táticos, Vicente dominando a bola como quem não tem pressa. Eu entrei no segundo tempo e os drones me seguiram como abelhas ouvintes. Passei dez minutos no campo e já tinha recebido três passes de Zeca, que é o goleiro e que, curiosamente, não parece se importar com nada.
Vicente me passou a bola no final do treino. Um passe curto, quase carinhoso, como quem presenteia. Eu desarmei no primeiro toque e fiz um drible no meio-campo. Vicente não tentou recuperar. Ele só me olhou, e o sorriso não mudou.
O treino acabou. Eu lavei as chuteiras no lavatório do vestiário e senti o couro sintético latejar no pé direito. Duas numerações maiores do que eu devia usar. Eu as calcei de novo e saí.
No hall principal, o painel luminoso de seguidores estava aceso. Uma tela grande no centro do corredor que atualizava em tempo real o número de seguidores de cada aluno. Quem caía abaixo de dez mil perdia acesso à sala de jantar nobre. Era o primeiro filtro social da Colina.
Eu cruzei o hall e olhei para o painel.
No topo, no número um absoluto, estava o nome que eu já tinha lido nas cem páginas do manual: Valentina Montferrand-Dell'Orto. Três milhões e duzentos mil seguidores. A filha da maior influenciadora de moda do mundo. A Rainha da Colina. A dona do Oráculo.
O nome brilhava no topo do painel, acima de todos os outros. Acima de Vicente, acima dos filhos de embaixadores, acima de todo mundo. Eu olhei para o meu nome, que estava no meio do painel, sem destaque, sem ícone, sem cor especial. Número 847.
Passei pela tela e segui em direção à ala dos bolsistas. A vista do jardim de esculturas me acompanhava pelas janelas do subsolo. Bonita. Inacessível. Trancada por dentro.
Comments (0)
No comments yet. Be the first to share your thoughts!